– Se você pudesse voltar no tempo vinte anos e dizer apenas duas palavras para si mesmo, o que diria?
Alguém me propôs esse desafio dias atrás. Logo pensei numa resposta e fiquei imaginando quanto a minha vida teria sido diferente por causa daquelas duas palavras.
Aquelas duas palavras fariam que eu deixasse de perder com tempo com livros ruins, ideias esdrúxulas e aventuras sem sentido.
Se ouvisse aquelas duas palavras, teria poupado uma quantidade inimaginável de sofrimento a mim mesmo e aos outros.
Bastariam as duas palavras para corrigir escolhas impensadas, evitar dramas inúteis, consolar angústias, aniquilar inconsequências e curar a depressão.
Assembleia de estudantes? Não, obrigado. Reunião do DCE? Não, obrigado. Campanha eleitoral? Não, obrigado. Curso de somaterapia? Não, obrigado.
Aproveitaria meu tempo de maneira bem mais simples, se tivesse escutado aquelas duas palavras. Dormiria melhor. Veria de outra forma os inimigos, os próximos, os irritantes, os chatos, os antipáticos, os velhos, as crianças, as testemunhas de Jeová.
Agradeceria até pelos instantes de medo. Nunca mais me entediaria. E o desespero seria um sentimento mais distante que Vladivostok.
As mulheres, ah! as mulheres – eu as veria de modo tão radicalmente suave… Nunca mais me permitiria ferir alguém ou mentir sem me envergonhar. Mãe e pai, eu conversaria bem mais com vocês…
As caminhadas pelo campus ou visitas à biblioteca se tornariam experiências ainda mais inesquecíveis. E o silêncio seria meu melhor companheiro de lutas, todas internas.
Tantas coisas eu teria deixado de fazer; tantas coisas teria feito; tanta gente eu conheceria melhor; tantos poemas eu entenderia; tantas músicas teriam outro sentido. Aquelas duas palavras seriam a minha tábua no oceano, o meu oráculo, o meu mandamento do Sinai.
A porta da República da Humaitá 143 está aberta. Deitado no velho sofá da sala, leio “Minha Vida”, de Trotsky. Um homem de meia-idade aparece subitamente e diz:
– Procure Deus.
Sei que aquele homem sou eu. Minha vida nunca mais será a mesma.
Paulo Briguet
Retirado de: http://www.jornaldelondrina.com.br/blogs/comoperdaodapalavra
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